É zika ou é dengue?

Conheça Cássio Souza, cientista potiguar que estuda as infecções pelos vírus dengue e zika em seu doutorado. Atualmente, ele divide seu tempo pesquisando estes vírus, trabalhando na força-tarefa de testagem do COVID-19, dando palestras e ainda arranjando um tempinho para se divertir.

O que você queria ser quando crescesse? Cássio Souza já quis ser biólogo marinho, pois queria mergulhar e ver o mundo debaixo d’água. Já quis ser médico da aeronáutica, pois queria voar e curar pessoas. Mas foi a carreira de cientista biomédico que o conquistou. Ele conta que “quando criança, ao ganhar um brinquedo qualquer, minha maior vontade não era brincar com ele, mas desmontá-lo para ver como ele era por dentro.” Mais tarde, esta curiosidade se manifestou em descobrir como o corpo humano e as doenças funcionavam. Mas não foi só isso que o influenciou a estar onde está hoje, como doutorando em Bioquímica e Biologia Molecular. Ao longo de sua vida, outras influências o levaram a se interessar pela função social da Ciência. Ele acredita que “todo conhecimento é válido, mas ele só se torna sólido, palpável, se mudar a vida de alguém para melhor”. Portanto, combinados, sua curiosidade e seu engajamento social encontraram o encaixe perfeito no estudo de doenças infecciosas e no combate a estas doenças.

O natural de Ipanguaçu-RN se interessa por enfermidades que são causadas por agentes infecciosos e que são mais comuns em populações socioeconomicamente vulneráveis, as chamadas doenças negligenciadas. “O estigma social de carregar uma “doença de pobre” é mantido por mais do que a simples ausência de tratamento ou atendimento médico de qualidade; é perpassado também pela ausência de interesse e investimento em pesquisa e desenvolvimento científico para combater essas doenças”, explica ele. Apesar da falta de recursos para tais pesquisas, Cássio felizmente encontrou em seu próprio estado um local, o Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (IMT-RN), onde pôde estudar duas destas doenças: dengue e zika.

Tais doenças são causadas por dois vírus que fazem parte da mesma família. Tanto o vírus da Dengue como o da Zika podem ser transmitidos por mosquitos do gênero Aedes, sendo o mais conhecido o Aedes aegypti. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz, estas infecções estão presentes em vários países nas Américas do Sul e Central, África e Sudeste Asiático. No entanto, o dengue também já foi detectado nos EUA e em alguns países europeus. Quando essas infecções ocorrem, ambas levam a sintomas parecidos, como dores no corpo e febre. Então, em suma, estes vírus apresentam “mais de 60% de semelhanças estruturais, com características epidemiológicas, vetores de transmissão e manifestações clínicas também semelhantes”, explica Cássio. Mas são as diferenças entre estes dois vírus e suas infecções que são o objeto de estudo do cientista.

Distribuição dos vírus da dengue e zika pelo mundo. Adaptado de Wu et al, 2018.

Na maioria das vezes, tanto a infecção do zika, como do dengue, levam a sintomas leves. Estes podem ser tratados com repouso, hidratação e remédios para a febre e dores. Mas ambas as doenças podem evoluir a casos clínicos mais graves, que são distintos a depender do vírus. Há duas principais complicações causadas pelo zika que causam alerta. Uma delas é a síndrome congênita do zika. Nestes casos, mulheres grávidas que contraem o vírus zika podem passá-lo para o bebê ainda dentro da barriga. Como consequência, “as crianças atingidas nascem principalmente com microcefalia, ou seja, com a cabeça menor que o normal, por causa de erros na formação dos ossos da cabeça e do cérebro. Isso causa um monte de problemas para o desenvolvimento da criança”, esclaresce Cássio. A outra é a Síndrome de Guillain-Barré, que é “um tipo de doença que atinge os nervos (…) e a pessoa acaba perdendo os movimentos aos poucos, pode até não conseguir respirar, porque os músculos que movem os pulmões podem ficar paralisados”, explica ele.

Já no caso da dengue, quando a infecção piora, ela faz com que os pacientes apresentem dor abdominal severa, vômitos e sangramento nas gengivas. Em último caso e sem assistência médica, pode até levar à morte. Sendo assim, por causa dessas fases mais graves das infecções por zika e dengue, é importante identificar com qual vírus a pessoa a pessoa foi infectada, a fim de que o paciente receba o tratamento mais adequado. Além disso, por questões de monitoração e controle das doenças, é também essencial saber qual vírus é mais prevalente em determinadas áreas. Com estas informações disponíveis, políticas de saúde pública podem ser melhor planejadas para atender às demandas locais.

No entanto, diferenciar entre estes dois agentes infecciosos baseando-se somente nos sintomas é bastante difícil, como vimos acima. E o teste laboratorial mais comum também não resolve o problema. Neste teste, o objetivo é identificar se o organismo já possui um certo tipo de proteína que é produzido quando temos uma infecção. Entre outras palavras, os anticorpos. O corpo humano é essencialmente capaz de produzir anticorpos específicos para cada tipo de agente infeccioso que entramos em contato. “Funciona assim: se uma pessoa apresenta anticorpos contra zika no sangue, então é porque em algum momento ela teve contato com o vírus”, Cássio esclaresce.

Porém, se para começo de história estes agentes forem da mesma família, como é o caso do vírus da dengue e zika, os anticorpos produzidos contra eles podem também ser bem semelhantes. Cássio conta que “hoje em dia, o principal método de diagnóstico das infecções por zika e dengue é através da identificação de anticorpos contra a proteína [viral não-estrutural 1] NS1, e há estudos que mostram alta semelhança entre as proteínas NS1 de zika e dengue.” Em ambas infecções, tal proteína é liberada no sangue pelas células infectadas. Em princípio, isso facilita a coleta e detecção destas moléculas, o que torna o diagnóstico mais simples. Mas é como se a gente tentasse diferenciar entre dois tons de azul. Os dois tons são diferentes, mas muito parecidos, o que aumenta a chance de identificá-los de maneira errada. Molecularmente falando, isso acaba levando a um problema chamado reação cruzada. Isto ocorre quando um anticorpo contra um agente também tem atração por outro, gerando resultados falso positivos nos testes. Portanto, testes mais específicos para identificar a infecção por zika e dengue são necessários. E aí que entra um dos projetos de Cássio. Ele dá mais detalhes: “nós testamos modificações em protocolos e pesquisamos anticorpos marcadores diferenciais para potencializar a especificidade dos testes, a fim de prover um meio mais seguro e eficaz de realizar o diagnóstico da infecção.” Como este estudo ainda não foi publicado e avaliado por outros cientistas, ainda não é possível divulgar os resultados. Mas, de acordo com o potiguar, são promissores.

O pesquisador também trabalha em outro projeto bem interessante. Este também é relacionado a anticorpos, mas desta vez com foco nos contra o zika vírus. Cássio explica: “Anticorpos (…) circulam no nosso sangue mesmo depois que a doença acaba. Isso é importante, porque se a gente for infectado novamente pelo mesmo vírus, esses anticorpos podem ajudar a combater a infecção, impedindo que a gente adoeça novamente. Os anticorpos são importantes não só para controlar a infecção, mas para ajudar a gente a identificar se uma pessoa está doente, ou se ela já adoeceu no passado.” Como vimos acima, mulheres grávidas podem passar o vírus da zika pros seus bebês ainda em suas barrigas, podendo levar à sindrome congênita do zika. Mas aí o que acontece num cenário onde uma mãe que se infectou durante a gravidez e deu luz a um bebê com esta síndrome? Será que, depois dessa primeira infecção, ela produziu anticorpos capazes de proteger ela e um eventual futuro feto, caso ela engravide de novo? “Se essas mães tiverem esses anticorpos circulando no sangue e protegendo elas, é menor a chance de terem outro filho com a mesma doença. A maioria dos estudos viram que essas mães têm esses anticorpos, mas só viram isso poucos meses depois que a criança nasceu.” Nesta pesquisa, que ainda está sendo finalizada, Cássio e seus colegas, procuram por estes mesmos anticorpos em intervalos mais longos depois da primeira gravidez, quando a mãe se infectou com zika. E o objetivo é investigar se estas moléculas permanecem no corpo, protegendo a mulher e um futuro bebê, o que conferiria uma memória imune de maior longo prazo.

Dando conta desses dois principais projetos, até um ano atrás, a rotina do cientista era totalmente diferente. “Incluía experimentos, discussões e reuniões científicas, além das aulas das disciplinas do curso de doutorado (…). Era comum passar 10 ou 12 horas direto na universidade, entre todas essas atividades, em fins de semana e feriados também. Foram milhares de amostras testadas, dezenas de novos protocolos de ensaios padronizados, além de contribuir com os projetos de pesquisa dos colegas de laboratório (…). Com a pandemia de COVID-19, minha rotina mudou completamente. Hoje, além dos experimentos e atividades do (…) doutorado, eu trabalho na força tarefa de testagem para COVID-19 da Unidade Clínica do IMT-RN, [a qual] tem prestado um serviço importantíssimo durante a pandemia. Nossa equipe assume, atualmente, uma grande parte da capacidade de testagem para COVID-19 [pelo teste molecular] qPCR de todo o estado do Rio Grande do Norte. (…) Além disso, também trabalho como Analista Clínico no laboratório de análises clínicas em um dos maiores hospitais da rede privada da capital, Natal”, conta Cássio. “Sacrifiquei muito da minha carreira como cientista nesse último ano, meus projetos de pesquisa ficaram em segundo plano, porque o foco agora é ajudar a salvar o maior número de vidas possível. É extenuante, e às vezes bate um desespero, por medo de não conseguir finalizar o doutorado, de ter minha carreira afetada, mas principalmente por não conseguir ver o fim dessa situação crítica em que estamos. Já chorei inúmeras vezes de desespero, de medo, de cansaço puro e simples. Mas ao mesmo tempo é gratificante. Eu aprendi demais no último ano, como cientista e profissional da saúde (…). As equipes das quais faço parte são formadas por profissionais incríveis em suas áreas. Tenho dado meu máximo para retornar isso em forma de trabalho da melhor maneira possível, seja na assistência em diagnóstico e monitoramento laboratorial, seja no ensino e no campo de divulgação científica, falando sobre o trabalho que nossas equipes estão desenvolvendo durante a pandemia em eventos para os quais sou convidado como palestrante.”

Para seguir nesta árdua, porém recompensadora carreira, o pesquisador revela que seus amigos e colegas de trabalho, “jovens como eu, que estão dando duro para construir suas carreiras e estão se tornando profissionais brilhantes e reconhecidos nos seus ramos” são suas principais referências. Além disso, suas orientadoras de mestrado (Profa. Janeusa Souto) e de doutorado (Profa. Selma Jerônimo) também são suas inspirações diárias, “porque eu vejo nelas exemplos incríveis de cientistas”. Fora do trabalho, Cássio adora cozinhar e dançar: “a cozinha é meu cantinho de paz; sempre que eu preciso de tempo para processar algo, ou quero comemorar algo, ou quero fazer algo legal para alguém especial, eu penso logo em cozinhar. Já dançar me dá uma sensação de liberdade incrível. Basta fechar os olhos e deixar a música me levar, sem pensar em mais nada. Ainda mais se for funk ou axé (risos).”

Pra finalizar, eu gostaria de agradecer a Cássio e sua equipe pelo trabalho incrível que eles tem feito durante o combate a pandemia de COVID-19. Seu trabalho e dedicação são extraordinários. E eu também gostaria de desejar todo o sucesso do mundo pra Cássio e seus projetos, e que ele continue dando o seu melhor como cientista, cozinheiro e dançarino! Você pode conhecer mais sobre a rotina de Cássio aqui.

Obrigada, Cássio, por compartilhar sua história!

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